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Eduardo Borba da Silva

A Gronelândia é nossa!

Vance é um idiota! EscreveuMiguel Sousa Tavares, na coluna semanal onde discorre, com acérrima regularidade, acerca de avulsas e complexas matérias. Neste mundo de incertezas repleto, ésempre reconfortante saber que temos jornalistas críticos, capazes de explicar as coisas em prosa bem tratada e acutilante. Desconheço a competência do insigne cronista para atestar as qualidades mentais do  jovem vice-presidente americano, que, é verdade, usa um discurso que não encaixa na bitola diplomática habitual. Pelo que me toca devo avisar algum eventual e desprevenido leitor, que nunca li nada autoradopelo mencionado JD. Na verdade, só ouvi um ou outro efémero excerto sonoro, daqueles que nos chegam à deriva, pelos noticiários das rádios e das talavejas, e aos quais geralmente não prestamos muita atenção. Talvez devido às diatribes do arrogante cronicador, desta vez foi diferente. Decidi escutar o que diz Vance, o vice. Tive oportunidade de acompanhar em direto e a cores,a sua visita à Gronelândia. Ouvi-o pois com redobrada atenção. Depois, seguindo o sábio conselho de São Jerónimo, legant prius et postea despicient, que é como quem diz "leiam primeiro, e depois condenem", estudei alguns documentos, tireiumas notas e escutei a opinião de gente que acompanha a situação in loco e a tempo inteiro.
Com muitas lacunas e de forma irregular tenhoainda assim tentado seguir a evolução dos acontecimentos na "maior ilha do mundo". Faço isto desde 1979, o ano em que foi promulgado o diploma que deu forma jurídica ao primeiro regime autonómico. Nessa altura rabisquei uns singelos apontamentos que foram publicados na revista Atlândida, do Instituto Açoriano de Cultura. Achei que talvez tivesse algum interesse para para os doutos estudiosos da autonomia açoriana conhecer alguma coisa sobre as circunstâncias juridico-políticas de Kalaallit Nunaat, que é o nome oficial da terra que conhecemos como Gronelândia, ou até Groênlandia, se assim o desejarem.É uma vastidão inóspita, revestida de gelo e rodeada por mares gélidos, que nestas últimas semanas tem estado no centro das atenções do mundo. Os gronelandeses, na sua maioria inuítas (que antes eram conhecidos como esquimós), são poucos (70 000 talvez), vivem em centros populacionais ao longo da extensa zona costeira, falam uma língua arrevezada e enfrentam graves problemas sociais. A capital - Nuuk - tem mais ou menos o mesmo número de habitantes que Angra.
Ao contrário do que por aí se apregoa e escreve, o território não pertence à Dinamarca. O seu estatuto é ainda pouco claro, e oscila entre fazer parte de uma federação, juntamente com a Dinamarca e as Ilhas Faroé, tendo a opção de se tornar um estado soberano, o que é possível, no quadro do presente regime autonómico, mas seria impossível de concretizar no presente enquadramento internacional. Por outras palavras a soberania pertence ao povo gronelandês até mais ver.
Os eleitores daquela vasta ínsula glaciar (três vezes o tamanho do Texas!) foram às urnas no dia 11 de março. Contados os 28 620 boletins de voto os partidos centristas tiveram alguns ganhos, embora na generalidade os independentistas continuem a ganhar terreno. O novo governo, liderado pelo líder dos Democratas (espécie de IL lá do sítio), de nome Jens-Fredrik Nielsen é uma coligação que deixou de fora os que preferem avançar para uma soberania plena e imediata, rejeitando qualquer associação com a malquista Dinamarca.De um modo geral a posição dos governantes é tentar ganhar tempo e desse modo criar mais espaço de manobra, para negociar uma solução equilibrada. Uma equação assaz complexa com muitas incógnias. De um modo geral pretende-se mais autonomia, mais respeito, mais investimento e claro está, mais dinheiro. Euros ou dólares, isso é indiferente.
As linhas gerais do que será a orientação política da Gronelândia nos próximos tempos está plasmada no documento intitulado, muito apropriadamente, Greenland in the World. Nothing about us, without us. Ou seja: sem nós nada feito. Até que ponto isso será possível, numa ordem internacional cada vez mais fragmentada, ou até já decomposta e moribunda, é o que vamos ver nos próximos anos, qua vão ser turbulentos.
Voltemos a J. D. Vance, o tal quefoi declarado idiota pelo Tavares do Expresso. No essencial repetiu de forma menos atabalhoada o que Trump tem proclamado. A Gronelândia é vital para a existência dos Estados Unidos. A Rússia e a China estão a ocupar o Ártico, e ameaçam os interesses americanos, perante a passividade dos europeus. O plano trumpista, que passa pela integração plena da ilha no tecido constitucional e territorial americano, é ainda assim uma ideia antiga. Foi proposta por Andrew Jackson em 1867, e mais recentemente por Harry Truman, em 1945. Vance convidou os gronelandeses a voltarem as costas à desleixada Europa e à Copenhaga colonial e a abraçarem o império nascente com sede em Washington, uma América de grandeza infinita e fronteiras herméticas. Prometeu-lhes autonomia e uns punhados de dólares.


 

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